RECOMENDAÇÕES TÉCNICAS PARA INSTALAÇÃO E REVISÃO DE CARREGADORES VEICULARES

Estações de recarga em corrente alternada — potência de até 7,4 kW

Objetivo:

apresentar um roteiro prático para projetar, instalar, inspecionar ou adequar circuitos que alimentam carregadores de veículos elétricos em residências, garagens e condomínios, com foco em segurança elétrica, proteção contra choques e sobrecorrentes, dimensionamento dos condutores, aterramento e conexão. Além da proteção dos equipamentos envolvidos e as instalações é fundamental a preocupação com a segurança das pessoas.

1. Referências normativas e escopo

A referência específica para instalações de alimentação de veículos elétricos é a ABNT NBR 17019 (Instalações elétricas de baixa tensão — requisitos para instalações em locais especiais — alimentação de veículos elétricos), em conjunto com a ABNT NBR 5410 (instalações elétricas de baixa tensão), suas versões vigentes e demais normas aplicáveis aos equipamentos e dispositivos. A solicitação menciona “NBR 1709”; neste documento foi considerada a NBR 17019, que trata especificamente da alimentação de veículos elétricos. Confirmar a edição vigente e o texto oficial no catálogo da ABNT antes de emitir projeto, laudo ou declaração de conformidade.

Este roteiro não substitui o projeto elétrico, o manual do carregador, as exigências da concessionária, as regras locais de segurança contra incêndio, corpo de bombeiros, normas dos condomínios nem a avaliação por profissional legalmente habilitado.

2. Levantamento antes da instalação

  • Identificar tensão e esquema de alimentação disponíveis (por exemplo, 220 V fase-neutro ou fase-fase), número de fases, frequência e capacidade da instalação.
  • Confirmar a potência e corrente máximas do carregador na tensão real de alimentação. Um equipamento de 7,4 kW em 230 V consome aproximadamente 32 A; em 220 V, aproximadamente 33,6 A. Usar os dados de placa e do fabricante para o projeto final.
  • Verificar capacidade do padrão de entrada, alimentadores, barramentos, quadro, disjuntor geral, demanda existente e possibilidade de simultaneidade com outras cargas.
  • Inspecionar o estado dos quadros, conexões, emendas, eletrodutos, cabos, sinais de aquecimento, corrosão, umidade e danos mecânicos.
  • Em condomínios, avaliar a origem da alimentação, medição/individualização do consumo, autorização condominial, capacidade da infraestrutura comum e estratégia de expansão para outros carregadores, bem como a eventual gestão da demanda, com instalação de controladores de demanda.

3. Circuito terminal individualizado

Prever circuito terminal dedicado para cada ponto de conexão, com proteção contra sobrecorrentes própria. Não compartilhar o circuito do carregador com tomadas gerais, iluminação, bombas ou outros equipamentos. A NBR 17019 prevê circuito individual para cada ponto de conexão, ressalvadas as soluções de sistema de recarga com múltiplos pontos que incorporem as proteções exigidas pela norma aplicável.

Identificar o circuito no quadro, indicar o destino e a corrente nominal, e manter esquema atualizado. O dispositivo de seccionamento deve permitir desenergizar o circuito para manutenção, conforme projeto e normas aplicáveis.

4. Disjuntor e proteção contra sobrecorrentes

  • Selecionar disjuntor compatível com a corrente de projeto, a capacidade de condução dos condutores, a corrente de curto-circuito presumida e a capacidade de interrupção do dispositivo.
  • Coordenar a proteção com a seção dos cabos e com as instruções do fabricante do carregador. Não escolher o disjuntor apenas pela potência nominal.
  • Verificar curva de disparo, seletividade/coordenação com as proteções a montante e capacidade de interrupção no ponto de instalação.
  • Não aumentar a corrente nominal do disjuntor para eliminar desligamentos sem investigar a causa; isso pode deixar cabos e conexões desprotegidos.

5. Proteção diferencial residual (DR/RCD)

Cada ponto de conexão em corrente alternada deve dispor de proteção diferencial residual individual, com corrente diferencial-residual nominal de atuação de até 30 mA, conforme os requisitos aplicáveis da NBR 17019. O DR desse ponto não deve ser compartilhado com outros circuitos de utilização.

Não utilizar DR tipo AC para este fim. Para recarga em modo 3, a proteção contra correntes residuais contínuas deve ser assegurada por uma das soluções admitidas pela norma: DR tipo B; ou DR tipo A associado a dispositivo de detecção de corrente contínua residual (RDC-DD) conforme IEC 62955; ou solução tipo F associada ao dispositivo de detecção previsto, quando aplicável. A escolha depende do modo de recarga, do projeto e das funções efetivamente incorporadas ao carregador.

Antes de instalar um DR externo, conferir a documentação do fabricante: alguns carregadores incorporam detecção de corrente contínua de 6 mA ou outra proteção certificada. Essa função só pode ser considerada quando a documentação técnica confirmar que atende aos requisitos normativos aplicáveis. O botão de teste do DR não substitui ensaios instrumentais de verificação.

6. DPS — proteção contra surtos

Avaliar e instalar dispositivos de proteção contra surtos (DPS) conforme a NBR 5410, a análise de risco, a exposição da instalação, a existência de sistema de proteção contra descargas atmosféricas, a alimentação aérea/subterrânea e as recomendações do fabricante. A NBR 17019 contém requisitos específicos para pontos de conexão em locais de afluência de público; verificar sua aplicabilidade ao local.

  • Selecionar tipo/classe, tensão máxima de operação contínua (Uc), nível de proteção (Up), capacidade de corrente de surto e esquema de ligação compatíveis com a instalação.
  • Instalar o DPS no local adequado, com condutores de ligação curtos e proteção de retaguarda quando exigida pelo fabricante e pelo projeto.
  • Instalar DSP para fase e para neutro.
  • Verificar indicador de estado, coordenação entre DPS e aterramento, e substituir módulos que indiquem fim de vida.

7. Dimensionamento dos condutores

Não existe uma seção única que sirva para todos os carregadores de até 7,4 kW. Dimensionar fase(s), neutro quando aplicável e condutor de proteção (PE) de acordo com a corrente de projeto e as tabelas/métodos da NBR 5410, considerando todos os fatores de correção.

  • Método de instalação (eletroduto embutido/aparente, bandeja, canaleta ou cabo ao ar), quantidade de condutores carregados e agrupamento com outros circuitos.
  • Material e classe do condutor, tipo de isolação e temperatura ambiente; presença de calor, umidade, agentes químicos e risco de dano mecânico.
  • Queda de tensão no circuito terminal e no conjunto da instalação, capacidade de curto-circuito e tempo de atuação da proteção.
  • Comprimento do percurso, possibilidade de expansão e regime prolongado de carga. A recarga pode manter corrente elevada por várias horas.
  • Terminais, bornes e conectores devem aceitar a seção e o tipo de condutor utilizados; respeitar torque especificado pelo fabricante.

Como referência de ordem de grandeza, 7,4 kW em 230 V corresponde a cerca de 32 A, mas isso não autoriza prescrever automaticamente cabo de 6 mm² ou qualquer outra seção. A seção final deve resultar do cálculo, das condições reais de instalação e da coordenação com a proteção.

8. Aterramento e equipotencialização

  • Verificar continuidade do condutor de proteção (PE) desde o quadro até o carregador e a ligação correta às partes metálicas acessíveis.
  • Confirmar o esquema de aterramento da edificação e as medidas de proteção por seccionamento automático. Não improvisar ligação entre neutro e PE no ponto de recarga.
  • Em esquema TN, não incluir condutor PEN no circuito terminal do ponto de conexão; aplicar o arranjo de proteção previsto no projeto e nas normas.
  • Verificar a equipotencialização principal e suplementar quando exigida, a integridade das conexões e a compatibilidade do carregador com o sistema existente.
  • Não usar tubulações de água, gás ou elementos estruturais como substitutos do condutor de proteção. Um eletrodo adicional isolado, por si só, não corrige uma instalação inadequada.
  • A estação de recarga deve ser selecionada/instalada de modo a evitar circulação indevida de correntes de sinal pelo PE da instalação fixa.

9. Conexão, tomada e montagem mecânica

  • Preferir estação de recarga apropriada ao uso, certificada/conforme normas aplicáveis e instalada conforme o manual do fabricante.
  • Usar tomada, plugue e conectores próprios para a corrente, tensão, ambiente e modo de recarga. Não utilizar adaptadores, extensões domésticas ou tomadas deterioradas para contornar uma instalação inadequada.
  • Se houver tomada, confirmar o padrão e a capacidade previstos pelo fabricante e pelas normas aplicáveis; garantir contato de proteção conectado ao PE.
  • Proteger cabos e conectores contra esmagamento, passagem de veículos, abrasão, água, calor e tropeços. Fixar o equipamento em suporte adequado e respeitar afastamentos e grau de proteção IP.
  • Instalar de modo que o cabo não fique tensionado, não atravesse rotas de fuga e não impeça a circulação. Prever proteção física em garagens sujeitas a colisões.

10. Medição individual e instalações em condomínios

Quando o carregador for alimentado por infraestrutura comum, definir previamente como será feita a medição individual do consumo, a atribuição dos custos, o controle de acesso e a gestão da potência disponível. Medidores auxiliares devem ter especificação adequada e não substituem medição fiscal quando esta for exigida. Avaliar gerenciamento dinâmico de carga para limitar a potência total e evitar sobrecarga do alimentador ou da entrada do edifício.

A instalação de vários carregadores pode exigir estudo de demanda, capacidade dos barramentos e alimentadores, seletividade das proteções, ventilação, roteamento de cabos, proteção contra incêndio e aprovação conforme regras do condomínio e autoridades locais.

11. Inspeção, ensaios e entrega

  • Inspeção visual: identificação, integridade, grau de proteção, aperto de terminais conforme torque, fixação, separação de circuitos e ausência de danos.
  • Ensaiar continuidade do PE e das ligações equipotenciais, resistência de isolamento conforme procedimento aplicável, polaridade/sequência quando pertinente e condições de seccionamento automático.
  • Verificar a atuação do DR com instrumento apropriado, incluindo corrente/tempo de disparo conforme o tipo de dispositivo e os critérios aplicáveis; não se limitar ao botão de teste.
  • Conferir tensão sob carga, corrente, queda de tensão, aquecimento anormal e funcionamento do carregador durante uma sessão de teste.
  • Registrar resultados, instrumentos utilizados, identificação dos dispositivos, ajustes, fotos, diagrama unifilar atualizado e orientações ao usuário.
  • Entregar documentação técnica e responsabilidade profissional aplicável (ART/TRT, conforme atribuição e exigência), além do manual e plano de manutenção.

12. Lista de verificação resumida

  • ☐ Projeto/cálculo revisado e potência disponível confirmada, ART-Anotação de Responsabilidade Técnica  de Profissional Habilitado
  • ☐ Circuito terminal dedicado e identificado
  • ☐ Disjuntor coordenado com os condutores e a corrente de curto-circuito
  • ☐ DR individual de até 30 mA, tipo adequado e proteção contra corrente contínua verificada
  • ☐ DPS avaliado/instalado conforme projeto e ambiente
  • ☐ Condutores dimensionados por capacidade, queda de tensão e fatores de correção
  • ☐ PE contínuo, aterramento e equipotencialização verificados
  • ☐ Conectores/tomada e estação adequados ao modo de recarga e ao ambiente
  • ☐ Medição individual e gerenciamento de carga avaliados, quando aplicáveis
  • ☐ Ensaios, registros e documentação de entrega concluídos

☐ Autorização do Condomínio para realizar Instalação, por profissional habilitado.

Observações finais

Qualquer sinal de aquecimento, cheiro de material isolante, escurecimento de bornes, disparos repetidos de proteção, choque perceptível ou falha de aterramento exige interromper o uso com segurança e solicitar avaliação profissional. Não se deve manter a recarga ativa para “testar” uma instalação suspeita.

Este material é um guia de recomendações e não reproduz o texto integral das normas ABNT. A conformidade deve ser verificada na edição oficial vigente da NBR 5410, NBR 17019 e normas de produto aplicáveis, bem como nos manuais do carregador e dos dispositivos de proteção.

Referências para consulta

  • ABNT NBR 5410 — Instalações elétricas de baixa tensão (consultar edição vigente).
  • ABNT NBR 17019 — Instalações elétricas de baixa tensão — requisitos para instalações em locais especiais — alimentação de veículos elétricos (consultar edição vigente).
  • ABNT NBR IEC 61851-1 — Sistema de recarga condutiva para veículos elétricos — requisitos gerais.
  • IEC 62955 — Dispositivos de detecção de corrente contínua residual (RDC-DD) para recarga de veículos elétricos, quando aplicável.
  • Manuais de instalação e documentação de conformidade do fabricante da estação de recarga, do DR/RDC-DD, DPS e disjuntor.

 

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